Seminário apresenta resultados do Projeto Mar de Alcatrazes

Atualizado em 23/03/2026

Postado em 23/03/2026

Copiar
texto

Texto copiado! Texto copiado!
-->

Após cinco anos de monitoramento, o Seminário Final do Projeto Mar de Alcatrazes reuniu especialistas em Santos, nos dias 24 e 25 de fevereiro, para apresentar os resultados obtidos com as pesquisas realizadas no Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, localizado em São Sebastião, litoral norte de São Paulo, sendo uma unidade de conservação gerida pelo Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio).

O projeto é fruto de uma parceria entre Petrobras e Núcleo de Gestão Integrada ICMBio Alcatrazes (NGI Alcatrazes), e contou com a participação de pesquisadores do Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha da Universidade Federal de São Paulo (Labecmar-Unifesp), Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar-USP) e Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e consolidou dados essenciais para a conservação da biodiversidade marinha da região, além de atuar na capacitação de novos profissionais. 

“O projeto teve como objetivo central estabelecer um monitoramento da biodiversidade marinha e dos fatores ambientais do Arquipélago de Alcatrazes, que inclui duas unidades de conservação de proteção integral”, afirmou Fábio Motta, professor do Labecmar-Unifesp e coordenador geral do Projeto Mar de Alcatrazes.

Motta explica que o estudo feito pelos pesquisadores foi dividido de acordo com três objetivos específicos: 1) implementar programa de monitoramento e detecção precoce de espécies exóticas; 2) avaliar as mudanças temporais, espaciais, quantitativas e qualitativas na comunidade bentônica e ictiofauna; e 3) avaliar e monitorar dados abióticos locais (temperatura da água, salinidade e penetração luminosa).

“O objetivo é integrar esses resultados para tentar entender quais são os fatores que estruturam essas comunidades biológicas na região, mas também ajudar o ICMBIO a fazer a gestão adaptativa daquele local. Essas áreas são unidades de proteção integral, ou seja, onde a pesca não é permitida. Portanto, o projeto serve para gerar uma linha de base para monitoramentos futuros, a fim de sabermos se essas espécies de fato estão aumentando, se o tamanho médio dessas espécies também vem crescendo”, contou Motta. 

Além do pioneirismo nos dados, o coordenador geral do projeto faz uma avaliação positiva do convênio com a Petrobras, que possibilitou também a capacitação de profissionais. “Outro aspecto importante de iniciativas com esse perfil é a formação de recursos humanos para ciências do mar. Os jovens fizeram seus de trabalhos de conclusão de cursos, seus mestrados e seus doutorados graças ao projeto (Mar de Alcatrazes), então uma contribuição se dá também na formação de recursos humanos”, destacou Motta. Durante o período de execução do projeto, aproximadamente 40 profissionais (entre biólogos e oceanógrafos) participaram do levantamento de dados.


Objetivos e resultados

Durante o monitoramento feito pelo Projeto Mar de Alcatrazes, foram consolidados dados sobre as espécies presentes no arquipélago, incluindo algumas ameaçadas de extinção. O seminário também abordou o monitoramento de espécies exóticas no arquipélago. 

“Conseguimos produzir artigos científicos, materiais de divulgação, fornecemos bastante informações para dar subsídio à gestão do arquipélago feita pelo ICMBio. Foi o primeiro estudo mais profundo das espécies exóticas em Alcatrazes e, com isso, a gente atualizou uma lista que antes contava com 11 espécies e agora são 24. E atualizamos a situação do coral-sol na unidade, que é super preocupada com essa questão”, avaliou o biólogo Sérgio Augusto Coelho de Souza,  coordenador do Objetivo 1 sobre monitoramento das espécies exóticas e cuja equipe desenvolveu um protótipo de pasta biocida para combate ao coral-sol.

Para o professor do Labecmar Unifesp, Guilherme Henrique Pereira Filho, o projeto permitiu verificar as mudanças dos organismos bentônicos nesses cinco anos. “Acompanhar a estrutura dessas comunidades ali na região é super importante porque, em qualquer evento que venha a mudar, a gente sabe o que foi perdido ecologicamente ou não dentro daquele ambiente (...) Além disso, esse tipo de parceria é fundamental, porque permite que a gente, dentro das universidades públicas, amplie as possibilidades de capacitação de pessoas a interagir com problemas reais de uma unidade de conservação (...), mas acho que o grande diferencial é a formação de estudantes, formando pessoas capacitadas para produzir conhecimento”, afirmou ele, que coordenou o Objetivo 2 do projeto.


Ainda sobre o Objetivo 2 do Projeto, o biólogo Domingos Garrone Neto, professor da Unesp e coordenador da frente de telemetria no monitoramento de peixes, conta que usou sensores em arraias e garoupas do arquipélago a fim de obter indicadores sobre os padrões de movimento desses animais. 

“A intenção da frente de telemetria é contribuir com o estudo da ecologia espacial de algumas espécies, especialmente as garoupas e as arraias-manteiga (...) Conseguimos entender o uso do espaço do arquipélago por essas espécies, o que ficou muito evidente para as garoupas, por exemplo, que são espécies residentes altamente fiéis à ilha, que passam praticamente a vida toda naquela área. Portanto, o arquipélago constitui um local crítico à sua reprodução e importante para sua sobrevivência, já que é uma espécie ameaçada. Assim, é relevante no contexto de ecologia espacial entender que o arquipélago para essas espécies não são utilizadas para passagem, mas sim para residência por um bom tempo”, contou Domingos, cujo trabalho monitorou 44 garoupas e 31 arraias-manteiga durante a execução do projeto.

Segundo a oceanógrafa Áurea Maria Aciotti (CEBIMar/USP), coordenadora do Objetivo 3 (temperatura e transparência da água), o trabalho de pesquisa foi desafiador, porém gratificante. “Acho que a gente conseguiu desenvolver uma plataforma de análise, de observação e de integração com o ICMBio. Além disso, avançamos na formação de recursos humanos. Nesse momento de tentar entender as influências do ambiente e as variações do ambiente na biologia, muitas vezes há essa lacuna de conhecimento, de interpretação e de pessoas treinadas para pensar em medir direito, interpretar direito, pensar adiante, de desenvolver métricas, ajudando a pensar coletivamente”, avaliou a especialista.

Além das palestras com apresentação de resultados, o Seminário Final do Projeto Mar de Alcatrazes contou com a apresentação do livro do Projeto, ainda em elaboração e a divulgação da prévia do documentário Mar de Alcatrazes, que traz imagens coletadas durante o projeto.

Clique aqui para assistir à prévia do documentário.
 

--:--